“A raiz da injustiça
já se espalhou no mundo inteiro,
onde nasce o fruto da miséria
onde a esperança se envenena
e se encontra com a fatalidade.
Essa sorte de injustiça
cai na esperança do índio (brasileiro),
o dono da natureza
o dono da simplicidade.
Deus tem seu compromisso
de abençoar seu povo
Deus derrama lágrimas
ao ver as suas obras destruídas;
Como o índio, ele chora
ao ver sua terra dominada
pela sociedade branca
onde conservam a raiz da injustiça
contra esse índio sofrido
Seria tão importante a união de todos
para acabar com esse regime de sacrifício.”
(Raiz da Injustiça, Ataíde Francisco Rodrigues)
Xehitâ-ha (Ataíde Francisco Rodrigues, nome contido em sua certidão de nascimento desde a data de seu batismo no dia 15 de abril de 1957), foi um grande guerreiro da comunidade Ofaié, líder de seu povo, poeta e escritor que nos privilegiou com valiosas histórias. O nome Xehitâ-ha vem do termo “Xehitana”, que tem como significado “macaco preto”.
Ataíde foi alfabetizado em português por uma das famílias de fazendeiros que tomaram suas terras. Através da escrita e da oralidade, atuou de forma decisiva, sempre exigindo os direitos de seu povo, manifestando suas ideias de forma contundente, narrando a história de sua etnia e semeando um novo rumo para o futuro da nação Ofaié.
Não poucas vezes seu caderninho de anotações estraviou-se. Pacientemente, lá estava ele, sob a lamparina, a escrever tudo de novo, revivendo em silêncio cada momento sofrido nos campos do abandono. (DUTRA, 1991, p.27)
Passou sua infância entre a aldeia e a fazenda. Ele conta que sua comunidade não tinha mais sossego na década de 1950 e que a perseguição dos fazendeiros era muito grande. Quando tinha nove anos de idade perdeu seu pai vítima do sarampo. Sem o pai, Ataíde partiu para o trabalho nas fazendas, retornando à sua aldeia aos dezessete anos.
Com dezoito anos, único que havia estudado até o terceiro ano do primário, Ataíde foi professor no projeto Mobral, curso voltado para os indígenas da aldeia Ofaié em Brasilândia-MS. Em 1978 sua comunidade foi retirada da região e realocada na Serra da Bodoquena (em Mato Grosso do Sul), onde a FUNAI instituiu o projeto que visava concentrar todas as principais etnias do estado no mesmo espaço da Reserva Indígena Kadiwéu. Nessa época, Ataíde casou-se com uma indígena Guarani-Kaiowá e tiveram dois filhos. Foi também na Serra da Bodoquena, em 1985, distante da terra originária, que Ataíde tornou-se cacique dos Ofaié.
No processo de retorno à Brasilândia, separou-se de sua esposa Guarani, e ela preferiu retornar para sua aldeia de origem com seus filhos.
Atuou como liderança decisiva no regresso ao território, na luta pela demarcação e na subsistência de seu povo. Publicou textos de atuação política que refletiam a luta pelo retorno à terra originária e de denúncia das atrocidades que os Ofaié vêm sofrendo com a ação dos fazendeiros e posseiros. Esses textos/relatos foram intitulados por Ataíde de “A luta Ofaié” e compõem o fundo Ataíde Xehitâ-ha do NDH. Ao lado do Conselho Indigenista Missionário–CIMI, Ataíde discursou em diversos eventos vinculados a ONGs, universidades e outros órgãos, fazendo campanha para a demarcação da Terra Ofaié. Escreveu também poemas, como o que segue:
“Os passarinhos não cantam mais porque estão foragidos de medo:
barulho de maquinários que destroem sem piedade.
Fogem sem rumo deixando seus filhotinhos para trás.
Perdem as suas vidas sem erro nenhum.
Meu Deus, quanta ganância por injustiça!
E o índio também sofre o mesmo regime.
Quando luta pelo seu direito encontra a desgraça imperfeita,
criada pelo inimigo desconhecido.
Que pensa o homem?
Esquece a própria vida,
esquece os próprios filhos quando sai para lugares estranhos.
Mexer com o índio que nada pensa porque está na sua terra,
no seu ranchinho, mesmo sendo esquecido pelas autoridades competentes,
que fingem não saber o problema.
Se a decisão chegasse com força o índio estaria tranquilo,
ia trabalhar mais sossegado, sem desconfiança nenhuma.
O índio espera esta oportunidade.”
(Duas Vidas, Ataíde Francisco Rodrigues)
Ataíde era tido como o principal componente do grupo Ofaié capaz de relatar as histórias e memórias da comunidade. Destacava a identidade Ofaié como uma comunidade, e não utilizava a definição de “povo”, expressão que comportaria apenas uma etnia, quando a luta Ofaié transcende essas barreiras, é uma resistência conjunta entre Ofaié, Guarani e não indígenas que convivem na comunidade e fazem parte da construção dessa identidade.
Em 2000, Ataíde deixou o posto de liderança do grupo, sendo sucedido por seu primo, José de Souza, em eleição democrática. No dia 13 de dezembro de 2016, o Cacique Ataíde Xehitâ-ha faleceu na cidade de Brasilândia-MS. Seus relatos, poemas, músicas, histórias e sua memória continuarão como exemplo de resistência servindo como referência para a população indígena e para o indigenismo sul-matogrossense.

Cacique Ataíde Xehitâ-ha no Plenário da Câmara dos Deputados juntamente a liderança indígena nacional Álvaro Tucano (autor desconhecido, 1989)
REFERÊNCIAS
BORGONHA, Mirtes Cristiane. História e Etnografia Ofayé: Estudo sobre um grupo indígena do Centro-Oeste brasileiro. Dissertação de Mestrado em Antropologia, UFSC, 2006.
DUTRA, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié, o povo do mel. Campo Grande-MS: CIMI-MS, 1991.
_________________. O território Ofaié: pelos caminhos da história. Campo Grande-MS: FCMS/Life Editora, 2011.